sábado, 22 de março de 2014

O PT de Santa Catarina com chapa própria: farsa ou tragédia?


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Por Tarcísio Eberhardt, do PSTU
O diretório estadual do PT-SC divulgou um manifesto onde proclama que o partido no estado lançará chapa própria e que, inclusive, o PSD de Colombo não estará no seu arco prioritário de alianças. Em Joinville, há alguns meses a corrente denominada “Esquerda Marxista” ganhou a convenção municipal do PT, tornando-se maioria no diretório municipal. Em Floripa, depois das mais variadas e desastrosas alianças, nas ultimas eleições o PT elegeu apenas um vereador, mesmo assim de uma ala mais à esquerda, que tem feito um mandato próximo das lutas e movimentos sociais.
Estaria o PT, em Santa Catarina, entrando em uma trajetória rumo a posições mais à esquerda, como afirmam alguns eternos militantes petistas? Estes estariam finalmente sendo recompensados pela sua abnegada permanência no partido que governa o pais por mais de 11 anos e que tem sido o grande gerente do imperialismo e do capitalismo em nosso país? Afinal, o que se passa com o PT aqui no estado?
A verdade está bem longe disso. Se por um lado é verdade, como afirma o manifesto da direção estadual do PT, de que o partido nunca chegou a governar diretamente o estado, isso não significa que ele já não esteja politicamente na direção do atual governo. Colombo hoje é aliado de Dilma e da cúpula nacional do PT. Tanto que Dilma e o PT nacional estavam dispostos a exigir que o partido, no estado, o apoiasse para sua reeleição.
Ironicamente, foi o próprio Colombo quem se encarregou de deixar bem claro para Dilma em sua última visita ao estado que isso era desnecessário. A sua atual aliança já tem muitos problemas para se manter até mesmo entre o PSD e PMDB, mais difícil ainda seria ter que dividir ainda mais as candidaturas com o PT para a próxima eleição. Por outro lado, Colombo sabe muito bem que o PT local não é páreo para ele nas eleições. O que interessa a ele é continuar sua aliança com o governo federal, que lhe rendeu mais de R$ 9 bilhões para suas obras, com as quais ele conta para sua reeleição, não só pelo apelo eleitoral que elas representam, mas, principalmente, por distribuir dinheiro aos rodos para os seus políticos amigos e empresários de todo estado.
Portanto, nem Colombo e mesmo o PT nacional estão muito se importando com oque PT regional vai fazer nas próximas eleições. Colombo porque não precisa dele para se reeleger, preferindo para isso coligar com PMDB e PP. A cúpula do PT nacional, incluindo Ideli, porque não está preocupada se a atual direção estadual elegerá ou não pouca gente. O que importa é garantir uma boa votação no estado para Dilma. Outra coisa bem diferente é se Ideli quisesse voltar a ser candidata ao senado. Aí sim, “jogaria duro” para conseguir a coligação com PSD e PMDB para viabilizar sua eleição. Porém, com a atual chapa majoritária daqui sendo formada por adversários internos, ela não está nada interessada com o desempenho eleitoral do PT regional. Mesmo porque dificilmente terá um bom desempenho nas eleições para governo do estado.
Na prática, será uma chapa auxiliar para Colombo, que o ajudará a se reeleger, talvez até mesmo no primeiro turno. Não lhe oferece perigo, pois só fara uma oposição de “mentirinha”. A verdade é que o PT, em Santa Catarina, entrou em decadência antes mesmo de vir a governar o estado. Sim, o PT de SC apodrece antes mesmo de amadurecer. Não é nenhum movimento progressivo ele lançar essa chapa própria para fazer um segundo palanque no estado para Dilma. Sim, segundo, pois o principal para a eleição presidencial é declaradamente o palanque de Colombo. Ainda mais nos termos que a direção estadual do PT procura viabilizar sua candidatura própria: coligando-se com o PP, da família Amin.
Quando dizemos que o PT no estado já esta em decadência, não queremos dizer decadência ideológica e política, pois isso já vem de muito tempo e é um processo nacional. Aqui nos referimos à decadência no sentido eleitoral, do número de parlamentares e prefeitos eleitos no estado, inclusive no que concerne às votações das eleições presidenciais.
Bem verdade, nunca chegou a ter bases sociais sólidas por aqui. As grandes e honrosas exceções foram as regiões Oeste e Sul do estado. No Oeste tinha forte presença em um dos mais impressionantes movimentos sociais que esse país já conheceu, que foi o MST. Eram uma potência entre os “Sem Terras” e os pequenos camponeses. Mas com a politica de apoio total da direção desse movimento ao Governo Lula, e agora à Dilma, eles perdem importância dia-a-dia. Afinal, estamos falando de governos que foram campeões na questão da reforma agraria, mas campeões de não há fazerem. O que não podia ser diferente, pois esses governos elegeram declaradamente os latifundiários e banqueiros como seus heróis e governam para eles.
No sul do estado esse processo vem de antes. A forte base que o PT tinha em Criciúma e região estava ligada ao impressionante movimento sindical ali existente na década de 80 do século passado. Mais essa base foi estruturalmente desarticulada com a destruição física da categoria mais importante, a dos mineiros do carvão. Ainda que essa base tenha continuado durante algum tempo ligada ao PT (fruto do trabalho anterior e dos demais sindicatos ligados ao partido da região), não mais voltou a ser a mesma potencia que fora antes.
No resto do estado, o PT nunca chegou a ter uma base forte nas lutas sociais, o que não quer dizer que tenha deixado de ter, no passado, uma forte presença eleitoral em quase todas as grandes cidades. Não quer dizer que não elegera prefeitos na maioria delas. No entanto, hoje não governa nenhum dos principais centros de Santa Catarina. Mais do que isso, depois de governar cidades como Blumenau, Chapecó, Criciúma, Joinville e mesmo Florianópolis com Grando / Afrânio, não só perdeu todas essas prefeituras como entrou em forte crise e decadência.
Não foi por acaso que o PT não conseguiu se manter nessas cidades: esses governos foram governos extremamente parecidos com todas as administrações burguesas. Na maioria dos casos foram ainda mais duros na implementação de austeridades, ou seja, nos cortes dos serviços públicos e no ataque ao funcionalismo. O fato de esses governos não terem uma base social organizada que os pressionassem, possibilitou-os maior liberdade para atacar os trabalhadores do município; e assim o fizeram.
Seus governos, via de regra, pegaram as prefeituras em crise, causada pelas corruptas administrações burguesas anteriores e fizeram todo o “trabalho sujo” para saneá-las da forma neoliberal clássica, o que provocou forte desgaste de seus governos, possibilitando assim que a burguesia os retomasse uma a uma, sem maiores dificuldades. Interessante lembrar que em Criciúma, que o PT conseguiu sua reeleição, a burguesia simplesmente recorreu ao judiciário, que derrubou o prefeito eleito sem que isso causasse a menor comoção na cidade.¹
O que ocorreu em nosso estado foi que o PT aqui cumpriu o papel clássico que a burguesia reserva para os partidos reformistas. A burguesia só os deixa entrar no governo quando há muita crise em suas administrações, ou em seus próprios partidos, e depois retoma o aparelho de estado, limpo e saneado pelos reformistas, que já fizeram o papel mais sujo, e agora a burguesia pode de novo usar e abusar das “tetas” das prefeituras.
O fato de o PT perder esses aparatos eleitorais tem, como não poderia deixar de ser, gerado grandes crises no seu interior. Essas crises de modo geral não são mais explosivas porque o aparato do governo federal é grande o suficiente para absorver seus quadros que sobram aqui quando perdem prefeituras. Mesmo assim, são inevitáveis as crises, já que, por se tratar de um partido com estratégia eleitoreira, ao perder seguidamente eleições em um importante município, perdem também influência mais direta sobre suas bases sociais. Principalmente na corrente majoritária do partido, que é a responsável pela manutenção desses governos. Por isso, alguém que mantém o mínimo de organização enquanto corrente nessas cidades, pode, conjunturalmente, até se tornar maioria, com ocorre agora em Joinville. Mas isso é algo totalmente temporário, sem nenhuma perspectiva de continuidade. Pelo contrario, as lições desses processos que as correntes majoritárias do PT tiram é que devem ir ainda mais à direita, serem mais submissas às burguesias locais, buscando mais e mais alianças com empresários e latifundiários.
Também é importante frisar que, eventualmente, quando eventualmente de alguma corrente da chamada esquerda petista se torne maioria, isso sequer traz alguma consequência prática. Em Joinville, por exemplo, nenhuma mudança se nota no PT pelo fato de esse ser agora dirigido pela “Esquerda Marxista”, que hoje parece ter como sua preocupação central defender Zé Dirceu e os outros mensaleiros do PT.
Nesse quadro, sem que Ideli se lance candidata ao senado (nesse caso as coisas mudariam, pois com sua candidatura as chances para uma que surgissem uma coligação entre PT e PSD seriam grandes) e com Colombo comprado a preço de ouro para apoiar a candidatura de Dilma, a direção nacional do PT pouco se importa com a “chapa própria estadual” e quer mais é ver as atuais correntes que controlam o PT no estado se afundando em crise e derrotas eleitorais, enquanto Ideli, Décio Lima e outros estão muito bem abrigados, em Brasília.
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¹ Em 2001 o PT elegeu Décio Góes em Criciúma. Em 2004 ele concorre vitoriosamente à reeleição, no entanto, é caçado pelo judiciário pela utilização da máquina publica em sua campanha.

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