quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O que está em jogo na atual reforma política?


Outro dia, uma conversa, que nasceu despretensiosamente, me deixou atordoado. Viajava com Tom, velho amigo e colega da Escola Técnica, que reencontrei depois de três anos de afastamento. Tom, no tempo de escola, sempre rondava o grêmio estudantil e lutava contra os aumentos das passagens. Hoje é meu colega de trabalho. A viagem - para Joinville - foi a trabalho.

A conversa girava em torno das corriqueiras reclamações contra os políticos e os governos, e se detinha por um instante nas críticas das manifestações de junho de 2013, que não tinham objetivos claros nem tiveram continuidade, quando eu disse que havia uma profunda crise de representatividade no país. Falei que ninguém nem qualquer instituição política representava fielmente aqueles de quem se diziam porta-vozes: nem os governos nem os partidos nem o Congresso Nacional... Arrematei, dizendo que era necessária uma reforma política.

Tom, meio distraído, olhava a paisagem pela janela do ônibus. Então o intimei: “Você não acha que tem que haver uma reforma política no Brasil?”

Tom perguntou: “Reforma para quê? E quem faria essa reforma?”

Retruquei: “Reforma para termos governos que executem os programas que seus eleitores escolheram. Reforma para termos deputados e senadores sérios, honestos e que respeitem os interesses e os pontos de vista do povo, que os elegeu. Reforma para fazer com que o poder político não se dobre diante dos grandes financiadores das campanhas eleitorais e dos governantes. Reforma para acabar com a bandalheira que tomou conta do país.”

Depois de admitir que vivíamos uma crise política e institucional generalizada, Tom, irônico, me interpelou de novo: “Sim... E os mesmos políticos, instituições e partidos que você critica promoveriam essa reforma?”

Notei que os três anos de distanciamento não tinham acalmado a língua afiada do meu colega, e me surpreendi numa contradição. Então pensei em trazer o espertinho para o mesmo beco sem saída em que ele me flagrou e o desafiei, perguntando: “Mas qual é, então, a solução para essa crise nacional?”

Tom aquietou-se. Pareceu voltar a examinar as vacas e bois que pastavam, alheios às nossas preocupações. Porém, passados alguns segundos, quando eu me preparava para contra-atacar e reanimar a reforma política – afinal não é possível que todos esses políticos e jornalistas estejam errados -, Tom deixou os bovinos e me disse: “Sei lá... Não acho que essa gente engravatada, dona do dinheiro e dos mandatos, seja capaz de fazer uma reforma política que nos agrade. Na verdade, acho que eles não querem fazer nada disso.” Essas palavras, mesmo que envoltas em dúvida e imprecisão, bastaram para sepultar qualquer convite para reconsiderar a reforma política.

Meu colega não sabia exatamente como prosseguir, mas, tateando, meio às escuras, continuou: “Esse sistema político, mesmo que aparentemente se mostre aberto a reformas, não é capaz de se modificar ao ponto de nos satisfazer. O sistema político vai se manter essencialmente o mesmo. É como se a falência da representação política, a indiferença da elite política à pobreza e ao caos dos serviços públicos, os escândalos de corrupção e o alinhamento com os interesses dos grandes banqueiros, industriais, comerciantes e latifundiários daqui e do estrangeiro são a carne, os ossos e a alma do sistema político.” Tom foi além e sentenciou: “Qualquer reforma do sistema político, realizada nos seus próprios marcos, só pode significar o seu reforço e torná-lo ainda mais perverso para nós.”

Para Tom, a saída em que os explorados e os oprimidos deveriam apostar é a luta direta por suas reivindicações e interesses e a na sua organização independente. Disse assim: “Ao invés cair na armadilha da reforma política, temos que construir nossas mobilizações, nossas greves e até mesmo uma greve geral contra a retirada dos direitos trabalhistas e previdenciário e contra o ajuste fiscal e as privatizações da Dilma. Nenhum Congresso Nacional, governo ou partido poderá garantir nossos direitos, afastar o desemprego e a inflação e por fim à corrupção. Cada dia mais acredito na ação direta da nossa classe, dos trabalhadores.”

Perguntei: “Mas como uma greve geral, mesmo que seja muito forte, poderia se sobrepor ao sistema político, aos governos, parlamentos, tribunais etc? O sistema político, mesmo desgastado como está, sobreviveria. Até poderia fazer uma ou outra concessão, mas seguiria controlando politicamente o país.”

Tom retomou a palavra e disse: “Sim, a luta direta, por si só, não superaria o sistema político. Para o derrotar, seriam necessárias organizações mais poderosas do que aquelas que compõem o sistema vigente.”

“Mas estas organizações não existem!”, adverti. E Tom esclareceu o seguinte: “Nessas lutas, nas lutas por salários mais justos, contra a corrupção e pela prisão dos corruptos e corruptores, pela manutenção dos empregos, por saúde e educação públicas, contra o machismo e as discriminações, devemos construir organizações totalmente independentes dos nossos inimigos e dos seus governos – organizações sindicais, estudantis, populares, partidárias etc. Numa fase aguda dessa luta, talvez, essas organizações possam superar esse sistema político perverso.” Foi adiante e disse: “Para que tenham sucesso, estas organizações, além de contar com a nossa confiança e engajamento, precisarão adotar um programa adequado, um programa que identifique o inimigo, e a ele oponha outro sistema político, apoiado nas organizações que foram se construindo na luta direta.” Sugeri então: “Mas isso seria uma revolução?!”. Tom falou, pausadamente: “Sim. Esses episódios têm relevância histórica e são conhecidos como revoluções.”

Meu antigo colega de colégio e atual colega de trabalho me mostrou uma perspectiva política nova, a revolucionária, demonstrou a incapacidade do sistema político brasileiro se autotransformar radicalmente, chamou minha atenção para a importância da luta direta, e despertou em mim um sentimento genuinamente revolucionário.

Pois bem... a vida mostrou que Tom estava certo em muito do que disse: A reforma política é uma tragédia! O ajuste fiscal continua sua marcha! As privatizações do PSDB foram ressuscitadas pelo PT. Agora precisamos construir a greve geral, sonhada por Tom, por mim e por tantos outros, e fortalecer nossa organização independente.

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