domingo, 18 de dezembro de 2016

Creches de Florianópolis não permitem religião de origem africana na matrícula

Racismo institucional nas creches da prefeitura de Florianópolis.

Por Diogo Leal.

As creches públicas pedem para os pais dizerem suas religiões na matrícula, mas não há nenhuma opção de religião de origem africana! Pais ficaram incomodados com isso na hora da matrícula e ficaram preocupados com a possibilidade de seus filhos sofrerem algum tipo de preconceito, não só dos coleguinhas, mas da própria instituição. Não há, também, a opção “sem religião” ou “ateu”.


Final do ano é época de tentar a sorte nas filas das creches públicas da cidade para poder deixar seu neném numa instituição educacional e permitir tempo livre para os pais trabalharem, especialmente para as mães. Do dia 10 a 23 de novembro de 2016 aconteceu o período de matrícula nas creches e NEIs (Núcleo de Ensino Infantil) públicas para o ano de 2017. É um questionário simples que pede algumas informações básicas sobre as famílias e classifica elas de acordo com a renda per capita de cada família. Porém, o questionário surpreendeu com o racismo impregnado nele!

Na parte sobre a religião dos pais não consta nenhuma opção de religião de origem africana como Umbanda e Candomblé. Isto chama ainda mais atenção pois o período de matrícula aconteceu justamente no intervalo de dias que abrange o dia 20 de novembro – Dia da Consciência Negra – demonstrando o atraso em que se encontra a Prefeitura no reconhecimento das religiões de origem africana e no reconhecimento do racismo existente nos dias de hoje fruto de 400 anos de escravidão e 100 anos de discriminação do povo negro em nosso país.

Números
14,68% da população de Florianópolis é autodeclarada negra (maior do que nos EUA onde os negros são 12,6%¹) mas são 40% das pessoas que vivem em favelas, morros e assentamentos irregulares². Isso é o mesmo que dizer que 1 a cada 6 pessoas de Florianópolis é autodeclarada negra, e que 1 a cada 3 moradores de favelas, morros e assentamentos irregulares são negros. Essa desigualdade mostra que a maior parte do povo negro da região se encontra no grupo que mais necessita das creches públicas o que torna ainda mais estranho não haver nenhuma preocupação de inclusão da cultura negra como as religiões de origem africana. Além disso, em uma pesquisa rápida no google nossa equipe encontrou pelo menos 33 Centros de Umbanda e Terreiros na cidade de Florianópolis³.

O não reconhecimento do povo negro na Grande Florianópolis e o não reconhecimento do racismo coloca a prefeitura da capital de Santa Catarina e de suas cidades vizinhas na zona de rebaixamento do combate ao racismo e da reparação histórica ao povo negro. Por isso a desconsideração das religiões de origem africana na matrícula das creches e NEIs públicas, e por isso não haver o feriado permitido por lei nacional do dia 20 de novembro – Dia da Consciência Negra - em nenhuma dessas cidades.

Combate ao racismo
Zumbi, o líder dos Palmares, deixou muitas lições. A mais importante é que a luta contra o racismo e a opressão deve ser uma luta contra todo o sistema que os mantém e deles se beneficiam. No quilombo não se encontravam apenas o povo negro organizado para resistir contra a opressão e a exploração, mas também artistas, indígenas, pobres, perseguidos políticos pelo regime, etc. Um lugar de resistência de todo o povo explorado e oprimido.


_________________________________________________________________________________
1 http://www.horadopovo.com.br/2013/09Set/3184-06-09-2013/P6/pag6a.htm
2 Estudo dos Indicadores Socioeconômicos da População Negra da Grande Florianópolis http://www.pmf.sc.gov.br/arquivos/arquivos/pdf/09_04_2012_17.15.23.8da1b09262509a280c6a6c8d0d680f03.pdf
3 http://www.uniafro.xpg.com.br/terreiros.htm
Foto: http://grupovioles.blogspot.com.br/2016/11/entrevista-escola-e-o-espaco-onde.html




Reações:

0 comentários:

Postar um comentário

Gostou dessa matéria? Deixe seu comentario.