terça-feira, 31 de janeiro de 2017

De um lado, os oito homens mais ricos do mundo. Do outro, 3,6 bilhões de pobres


Neste dia 16 de janeiro, um relatório divulgado pela Oxfam, um conjunto de ONG’s que atuam em diversos países, mostra a brutal concentração de renda no mundo. Nada menos que os oito homens mais ricos do mundo detêm um patrimônio equivalente à metade mais pobre da humanidade, ou 3,6 bilhões de pessoas.
Por: Diego Cruz
Esses oito senhores detêm, juntos, uma riqueza de US$ 426 bilhões. Já a metade mais pobre tem o equivalente a apenas 0,25% da riqueza global, estimada em US$ 255 trilhões. Os dados constam do relatório “Uma economia para os 99%” e foram organizados a partir de informações do Credit Suisse Wealth Report 2016 e da lista dos super-ricos da revista Forbes.
Desde 2015, a parte que representa apenas 1% da humanidade tem mais riquezas que o resto do planeta. Neste mesmo ano, as dez maiores empresas do mundo tiveram um faturamento maior que o de 180 países juntos.
E essa desigualdade tende a crescer mais ainda. Entre 1988 e 2011, a renda dos 10% mais pobres no mundo cresceu US$ 65 dólares, enquanto que a do 1% mais rico aumentou US$ 11.800 dólares, 182 vezes mais. Nos EUA, a renda da metade mais pobre da população ficou inalterada, enquanto a do 1% mais rico cresceu três vezes.
Quem é esse 1%? Os 1.810 bilionários que constam na lista da Forbes são quase que exclusivamente homens: 89%. Acumulam uma fortuna de US$ 6,5 trilhões, equivalente ao que tem 70% da população mais pobre do mundo.
O relatório aponta ainda as dificuldades enfrentadas pelas mulheres. Primeiro, em ter um emprego. As chances de mulheres participarem do mercado de trabalho é 27% menor que os homens. Arrumando emprego, têm mais chances de ficarem de fora da legislação trabalhista, ou seja, são obrigados a permanecer na informalidade. E por fim, no emprego formal, as mulheres ganham menos que os homens.

Um capitalismo mais “humano”?
O relatório divulgado pela Oxfam é um importante documento de denúncia e mostra bem uma das tendências centrais do capitalismo: uma concentração cada vez maior da riqueza, com o aumento do fosso entre ricos e pobres. É ainda uma resposta contundente aos que advogam que “o capitalismo deu certo”. Qual o motivo de haver 700 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza num mundo que produz US$ 255 trilhões? O problema é justamente no que se propõe: um capitalismo mais “humano”.
Partindo do princípio mais do que correto de que a atual hiperconcentração é insustentável, a Oxfam propõe um conjunto de medidas a fim de reduzir essa desigualdade que passa por reformas rumo a uma “economia humana”. Tais medidas incluem a democratização dos governos e a cooperação entre eles em favor dos mais pobres, a atuação das empresas “em benefício de todos” e não exclusivamente do lucro, a taxação das grandes fortunas com o combate à sonegação fiscal, entre outras.
Como o próprio relatório aponta, o Banco Mundial, o FMI, o presidente Barack Obama, dizem a mesma coisa: é necessário reduzir a desigualdade. Ora, então por que não se reduz? Por que esse fosso só aumenta? Porque, por trás das palavras, os governos e os organismos multilaterais são instrumentos do imperialismo e da burguesia para manter e perpetuar essa situação. Pedir para agirem contra os seus próprios interesses é pedir para um escorpião aferroar a si próprio. Nunca vai acontecer.
Os governos não vão agir contra os interesses da classe que representam. As empresas não vão atuar contra a lógica que lhe dá sentido: a maximização dos lucros. Os Estados Nacionais não vão agir de forma “cooperada”, já que os interesses de suas burguesias são inconciliáveis e o imperialismo sempre vai buscar explorar os países coloniais e semicoloniais.
Mas deveríamos então lutar contra os governos para impor medidas como a taxação das grandes fortunas e das transações financeiras, como propõe o economista francês Thomas Piketty? É certo que devemos nos colocar contra o brutal sistema tributário regressivo que penaliza os mais pobres, assim como defender a taxação das grandes fortunas. Mas isso por si só resolveria o problema?
A questão é que a Oxfam, Piketty, dentre tantos outros que propõem um capitalismo de rosto humano (como a taxa Tobin muito discutida no início dos anos 2000), não tocam no cerne do problema: o capitalismo é um sistema que funciona com base na exploração de uma classe sobre a outra, que representa a grande maioria da população. A classe trabalhadora, que é quem realmente produz as riquezas, contraditoriamente goza de ínfima parte do que ela mesma produz. Quase tudo vai compor o patrimônio desse 1% da população.
A desigualdade crescente é reflexo dessa contradição. Posições como a da Oxfam partem do pressuposto de que a existência de trabalhadores e patrões é legítima, ou seja, é justo que alguns trabalhem e outros vivam com base no trabalho alheio. O que deveria haver, para eles, é um pouquinho de consciência “humana” para que os empresários e governos tornem a vida desses que trabalham um pouco mais suportável. Uma utopia reacionária.
O que existe não é uma mera questão de distribuição de renda. Taxar as grandes fortunas não resolve o problema. Tampouco a questão de fundo é que os ricos pagam pouco imposto. Tudo o que os ricos têm, da fortuna que gozam ao próprio imposto que pagam, é fruto do trabalho da classe que exploram. A exploração, e não a distribuição de renda, é o verdadeiro problema.
E não tem como acabar com a exploração sem dar cabo do sistema sobre o qual ele se assenta: o capitalismo.

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